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A armadilha da bebida
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Nesta série:
Assuntos relacionados: |
O abuso do álcool
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COMO O ÁLCOOL PODE FAZER MAL A VOCÊ
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Beber com freqüência faz a química do cérebro se adaptar para compensar o efeito tóxico do etanol e manter a função do nervo normalizada. Isso leva à tolerância, de forma que a mesma quantidade de álcool tem menos efeito do que antes. A dependência acontece quando o cérebro fica tão acostumado à presença do álcool que não consegue mais funcionar normalmente sem ele. O corpo anseia pelo álcool para manter o equilíbrio químico. Quando a pessoa fica sem álcool, a química do seu cérebro fica completamente desestabilizada e começam a se desenvolver os sintomas de abstinência, como ansiedade, tremores e até convulsões. Além de causar alteração na química cerebral, o abuso do álcool pode levar à degeneração e à destruição celular, modificando a própria estrutura do cérebro. Embora a abstinência possibilite a recuperação parcial, alguns desses danos parecem ser irreversíveis, o que afeta ainda mais a memória e outras funções cognitivas. O dano causado ao cérebro não é o resultado apenas do uso prolongado do álcool. Pesquisas indicam que, provavelmente, o abuso do álcool por períodos relativamente curtos pode ser prejudicial. Doença do fígado e câncerO fígado tem um papel fundamental em metabolizar alimentos, combater infecções, regular o fluxo sanguíneo e eliminar substâncias tóxicas do corpo, inclusive o álcool. O uso prolongado de álcool pode prejudicar o fígado em três estágios. No primeiro, a decomposição do etanol torna lenta a digestão de gorduras, de forma que elas se acumulam no fígado. Isso se chama esteatose hepática, ou fígado gorduroso. Com o tempo, se desenvolve uma inflamação crônica no fígado, ou hepatite. Embora o álcool talvez cause diretamente a hepatite, é provável que ele também diminua a resistência do corpo contra os vírus da hepatite B e da hepatite C.* Se não for monitorada, essa inflamação causa o rompimento e a morte das células. Para aumentar o estrago, o álcool parece desencadear o sistema natural de morte celular programada, chamado de apoptose. O estágio final é a cirrose. O ciclo vicioso de inflamação e destruição celular constantes causa lesões irreversíveis. Isso faz o fígado ficar granulado em vez de permanecer esponjoso. Por fim, o tecido cicatricial impede o fluxo normal do sangue, resultando na falência do fígado e na morte. A ação do álcool no fígado tem outro efeito colateral insidioso: diminui sua capacidade de defesa e de neutralização do efeito dos agentes causadores do câncer. Além de favorecer o desenvolvimento de câncer no fígado, o álcool aumenta grandemente o risco de câncer na boca, na faringe, na laringe e no esôfago. Além disso, o álcool facilita que as substâncias cancerígenas do tabaco penetrem na mucosa da boca, aumentando o risco para os fumantes. As mulheres que bebem diariamente correm maior risco de desenvolver câncer de mama. Segundo certo estudo, o risco para as mulheres que tomavam três ou mais doses de bebibas alcoólicas por dia era 69% maior do que para as que não bebiam. |
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“O álcool é muito pior para o desenvolvimento do feto do que qualquer outra droga usada de forma errada” |
Bebês envenenadosUma conseqüência trágica do abuso do álcool é o seu efeito sobre o feto. “O álcool é muito pior para o desenvolvimento do feto do que qualquer outra droga usada de forma errada”, noticia o jornal International Herald Tribune. Quando uma mulher grávida bebe, a criança em desenvolvimento também bebe, e o efeito tóxico do álcool é extremamente prejudicial nesses estágios de formação do feto. O álcool causa danos irreversíveis ao sistema nervoso central. Os neurônios não se formam corretamente e as células morrem. Outras células se desenvolvem no lugar errado. O resultado é a síndrome alcoólica fetal (SAF), a principal causa de retardamento mental em recém-nascidos. Entre as dificuldades enfrentadas por crianças com SAF estão: diminuição da capacidade intelectual, problemas lingüísticos, atraso no desenvolvimento, disfunção ou déficit comportamental, crescimento lento, hiperatividade e distúrbios auditivos e visuais. Muitos bebês que têm SAF também nascem com deformidades faciais características. Além disso, as crianças cujas mães bebem até mesmo quantidades moderadas de álcool durante a gravidez podem sofrer certas deficiências, inclusive problemas de comportamento e déficits de aprendizagem. “Você não precisa ser uma alcoólatra para fazer mal ao seu bebê. Basta tomar um pouco de bebida alcoólica durante a gravidez”, comenta Ann Streissguth, professora da unidade fetal de álcool e droga da Universidade de Washington. O relatório do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisas Médicas da França, Alcool—Effets sur la santé (Álcool — Efeitos sobre a Saúde), observa: “O uso do álcool é prejudicial à saúde durante todo o período gestacional. Nunca se estabeleceu uma dose mínima que não apresentasse riscos.” Por isso, a coisa mais sensata que as mulheres grávidas, ou que planejam engravidar, podem fazer é não ingerir absolutamente nada de álcool.# Beber com moderaçãoA lista dos riscos à saúde mencionada acima de forma alguma é completa. Um artigo publicado em 2004 na revista Nature mostrou que “mesmo pequenas quantidades de álcool aumentam o risco de lesões e agravam as chances de desenvolver cerca de 60 doenças”. Diante disso, o que é beber com moderação? Hoje em dia, milhões de pessoas em todo o mundo gostam de tomar uma bebida de vez em quando. O segredo para uma boa saúde é beber com moderação. Mas o que, exatamente, é moderação? A maioria das pessoas acham que bebem moderadamente, talvez raciocinando que, desde que não fiquem bêbadas ou dependentes do álcool, não há problemas. Entretanto, 1 em cada 4 homens na Europa apresenta um consumo de álcool considerado perigoso. Muitas fontes definem beber moderadamente como consumir 20 gramas de álcool puro por dia, o equivalente a dois drinques padrão, para os homens; e 10 gramas, ou um drinque, para as mulheres. Autoridades da área de saúde britânicas e francesas sugerem “limites razoáveis” de três drinques por dia para os homens e dois para as mulheres. O Instituto Nacional de Combate ao Abuso do Álcool e ao Alcoolismo, dos EUA, recomenda também que “pessoas com 65 anos ou mais limitem seu consumo de álcool a apenas um drinque por dia”.% Cada um de nós, porém, reage de maneira diferente ao álcool. Em alguns casos, até esses limites mais baixos podem ser altos demais. Por exemplo, “quantidades moderadas de álcool podem ser prejudiciais para pessoas que têm transtornos de ansiedade e do humor”, observa o 10th Special Report to the U.S. Congress on Alcohol and Health (Décimo Relatório Especial para o Congresso dos Estados Unidos sobre Álcool e Saúde). Deve-se levar em conta fatores como a idade, o histórico médico e a estrutura física da pessoa. — Veja o quadro “Redução dos riscos”. |
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REDUÇÃO DOS RISCOSAs seguintes definições de baixo risco foram publicadas pelo Departamento de Saúde Mental e Dependência Química da Organização Mundial da Saúde. Baixo risco não significa ausência de risco. As reações individuais ao álcool variam.
Nas seguintes situações, até mesmo um ou dois drinques pode ser demais:
Source: Brief Intervention for Hazardous and Harmful Drinking * Um drinque padrão é igual a 10 g de álcool por unidade ou por copo. DEVE BEBER ANTES DE DIRIGIR?As restrições a dirigir sob a influência do álcool são quase tão antigas quanto os carros. O primeiro país a adotar essa lei foi a Dinamarca, em 1903. Quando você bebe de estômago vazio, o álcool no seu sangue atinge o nível mais alto cerca de meia hora depois de ingerido. Ao contrário do que muitos acreditam, beber café, respirar ar fresco e fazer exercício físico não ajudam a ficar sóbrio. Só o tempo abranda o efeito do álcool em seu organismo. Além disso, não se esqueça de que “um drinque é um drinque”. Ou seja, se beber um drinque padrão de vinho, cerveja ou bebida destilada, o teor alcoólico é o mesmo.* Mesmo pequenas quantidades de álcool podem prejudicar a sua capacidade de dirigir. O álcool afeta sua visão, fazendo com que as placas de sinalização pareçam menores. Sua visão periférica e também sua capacidade de avaliar distâncias e focalizar objetos que estão longe fica reduzida. A capacidade do cérebro de processar informações, o reflexo e a coordenação ficam lentos. Se você se envolver em um acidente depois de ter ingerido álcool, é provável que seus ferimentos sejam mais graves do que se você estivesse sóbrio. Além disso, suas chances de sobreviver a uma cirurgia de emergência diminuem por causa do efeito do álcool sobre o coração e a circulação. “Sendo assim, contrário ao que se acredita, a maioria das mortes relacionadas ao abuso do álcool são dos próprios motoristas bêbados”, observa um relatório do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisas Médicas, da França. Em virtude dos perigos, o relatório dá as seguintes recomendações:
* De modo geral, eliminamos cerca de 7 gramas de álcool por hora. Um drinque padrão varia de acordo com o país. A Organização Mundial da Saúde define um drinque padrão como contendo 10 gramas de álcool puro. Isso equivale a aproximadamente 250 ml de cerveja, 100 ml de vinho, ou 30 ml de bebida destilada. As seguintes referências contêm, aproximadamente, a mesma quantidade de álcool
O ÁLCOOL É BOM PARA O CORAÇÃO?Cientistas supõem que substâncias químicas contidas no vinho tinto (polifenóis) inibem a ação de uma substância química que provoca a contração dos vasos sanguíneos. Além disso, o álcool em geral tem sido associado ao aumento nos níveis do chamado bom colesterol. Reduz também as substâncias que causam coágulos sanguíneos. Parece que quaisquer benefícios que o álcool proporciona estão vinculados a beber pequenas quantidades durante a semana, em vez de tudo de uma vez só numa noitada. Beber mais de dois drinques por dia está relacionado com aumento da pressão sanguínea; e beber sem moderação aumenta o risco de derrame e pode causar inchaço do coração e batimento cardíaco irregular. Beber em excesso traz esses e outros riscos à saúde, de forma que eles superam qualquer efeito positivo que o álcool possa ter sobre o sistema cardiovascular. Uma coisa boa quando demais é exatamente isso — demais. |
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Que ajuda há para os que fazem mau uso do álcool? O próximo artigo responderá essa pergunta. * Segundo um estudo realizado na França, os pacientes infectados com o vírus da hepatite C que costumam beber muito correm um risco duas vezes maior de desenvolver cirrose do que os pacientes com o mesmo vírus que bebem moderadamente. Recomenda-se que as pessoas com o vírus da hepatite C bebam muito pouco ou não bebam absolutamente nenhum álcool. # As mulheres que estão amamentando devem estar cientes de que, depois que elas bebem, o álcool se acumula no seu leite. Na realidade, a concentração de álcool no leite materno geralmente é maior do que no sangue, já que no leite há mais água para absorver o álcool. % Tendo em vista que um “drinque” varia de acordo com o lugar, a quantidade de álcool servida em um copo reflete os padrões locais e deve ser levada em conta antes do consumo. |
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Publicado em Despertai! de 8 de outubro de 2005 |